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Pano de Boca

Publicada em : 10/06/2015

Teatro do Incêndio homenageia Fauzi Arap com espetáculo, uma reflexão poética sobre o teatro

Divulgação
A Cia. Teatro do Incêndio estreia no dia 11 de julho (sábado, às 20 horas) o espetáculo Pano de Boca, obra emblemática de Fauzi Arap (1938-2013) escrita 40 anos atrás. Com direção de Marcelo Marcus Fonseca a peça retrata a implosão de um grupo de teatro, após seus integrantes ultrapassarem todos os limites entre arte e vida. A peça tem participação especial de José Celso Martinez Corrê dando voz a texto da escritora russa Helena Blavatsky sobre o autoconhecimento e a libertação interior.

A peça, que teve sua última encenação em 1976, foi autorizada pelo autor, antes de sua morte, para montagem do diretor Marcelo Marcus Fonseca. A encenação também faz uma “releitura” do cenário e dos figurinos criados por Flávio Império (1935-1985), homenageando duas das maiores personalidades do teatro brasileiro, cuja parceria criativa é considerada inigualável nas artes cênicas.

Fonseca explica que Pano de Boca questiona o que é o teatro e qual a sua essência, tanto do ponto vista real, quanto do ponto de vista do personagem. O debate gerado sobre a criação humana, a relação entre divino e terreno, trata da difícil tarefa de manter o equilíbrio em um mundo dominado por valores distorcidos.

“Pano de Boca traz a única discussão oportuna nos tempos atuais sobre a criação, o teatro e a espiritualidade em um tempo onde a esquizofrenia é gerada pela velocidade, atirando o homem no abismo da disputa pelo sucesso, do isolamento, da poluição sonora, da intolerância”. E completa o diretor: “Acredito que para o teatro atual, para a juventude que procura o teatro, para nós artistas, que lutamos pela sobrevivência de um teatro mais sagrado que político-partidário, esse texto é urgente e necessário, quando toca na ferida com a delicadeza de uma Clarisse Lispector”.

Em um plano não realista, a peça trabalha com a questão do conceito de criação e, mesmo em seu plano realista, ela depende do metafísico para ser entendida. O texto de Fauzi Arap quer aproximar o expectador da cabeça do autor, no momento da criação. Ele, portanto, trata o teatro como alquimia: Pano de Boca é bem mais uma experiência do que simplesmente uma história.

O enredo

O texto é estruturado em três planos. No primeiro, dois personagens indefinidos, palhaços inacabados, reclamam vida dentro da cabeça de um autor em crise. No segundo, uma atriz (Gabriela Morato) dialoga com alguém que não se vê sobre os acontecimentos que motivaram a desintegração de um grupo. E no terceiro, o próprio grupo tenta reabrir o teatro abandonado, em uma reunião convocada por alguém não identificado. A peça se funde em uma discussão sobre a criação, a exclusão e o sagrado no teatro. Os atores transitam por linguagens diferentes como o realismo, o circo e um quase surrealismo, diferenciando os três planos aparentemente distintos do texto, que fluem para um caminho único.

Os palhaços - Pagão (Marcelo Marcus Fonseca) e Segundo (Diogo Cintra) - são como duas forças lutando para existir como personagens, que discutem com o autor. “Eis a metáfora: a crise do autor na criação e a discussão com Deus, com o poder criativo. O autor, que nunca aparece em cena, tenta reconstruir algo, enquanto todos os personagens da peça estão diante de uma esfinge, que pode ser um mistério maior do teatro, da vida. Ela pode simbolizar o medo, que pode ser o mero medo de existir”. Argumenta o diretor.

Os palhaços, representando o poder e também a fragilidade da criação, fazem o contraponto com realidade da arte na vida do ator. Palhaço canastrão, Pagão é matéria quase bruta, ele emana uma energia mais violenta, mostra-se com pouca sensibilidade, mas ganha contornos humanos na “vida”.  Já o palhaço Segundo tem trejeitos miúdos, é sensível, e sua sensibilidade é atacada e violentada o tempo todo, colocando sua existência em risco. Ele propõe uma reflexão sobre como o personagem pode se afirmar, revidar nos embates para sobreviver, pois pode se perder completamente se for exposto ainda inacabado.

No plano da realidade, os integrantes do grupo de teatro têm um encontro marcado, que se emenda com o plano - real e espiritual - da mulher. Essa mulher conversa com alguém, que pode ser qualquer um. Seu espaço é indefinido, sua alma está em descoberta, sua narrativa conduz ao entendimento sem ser conclusiva: ela tenta compreender suas questões e, ao mesmo tempo, não consegue as respostas que procura.

No grupo de teatro houve afastamento; um desregramento que ultrapassou qualquer contorno pessoal. Os integrantes não conseguem se comunicar. Chamados para uma reunião no antigo espaço da companhia, eles se veem trancados e cercados por um clima de mistério. Sem fazer de conta que nada aconteceu eles são obrigados a encarar o passado para seguir em frente e descobrem que não há como negar o outro, pois a saída é de todos. Na metáfora de Fauzi Arap está dificuldade de reconstruir o que se quedou. Inclusive, um dos personagens, Pedro, foi inspirado na história verídica de Samuca, jovem ator do Grupo Oficina, nos anos 70, que enlouqueceu e parou de falar em consequência do uso abusivo das drogas. A recusa da palavra (recurso mais expressivo do ator) foi usada pelo autor de forma ambígua, também como alegoria da situação do teatro diante da censura política que existia na época.

Cenário, figurino e trilha sonora

O Cenário (de Marcelo Marcus Fonseca) e o figurino (de Gabriela Morato) foram livremente inspirados nos originais de Flávio Império, da montagem de Fauzi Arap, de 1976. Marcelo e Gabriela mergulharam em desenhos, fotos e anotações da época para “recriar” a estética de Império. O figurino é atemporal; em modelos, tons e cores que harmonizam com estado de espírito dos personagens.

Todo o teatro de “pernas para o ar” é a cenografia de Pano de Boca. Tecidos e poltronas estão pendurados no teto. “É como se o espaço fosse sacudido por um terremoto que fez brotar do chão as bases e essências do teatro brasileiro”, comenta o diretor e cenógrafo. Pelo espaço estão espalhados objetos cênicos significativos de dezenas de grupos paulistanos, doados especialmente para a peça. Assim, Pano de Boca representa a história de todas as companhias, a energia do próprio teatro.

A trilha incidental, criada durante os ensaios, é executada por atores que não participam como personagens da cena em questão, fazendo da música (e do músico) também um elemento estético e cenográfico.

Pano de Boca teve sua primeira montagem em 1975, no Rio de Janeiro com Marco Nanini e Thaia Perez no elenco. Em São Paulo, em 1976, a montagem do próprio Fauzi Arap foi estrelada por Nuno Leal Maia e Célia Helena, tendo Flávio Império na criação do cenário e do figurino. A estreia ocorreu no extinto Teatro 13 de Maio, na mesma rua do Bixiga onde a Cia. Teatro do Incêndio inaugura sua nova sede, exatamente com a mesma peça.

“Tive o primeiro contato com essa peça aos 16 anos e ela se tornou o meu livro de cabeceira. Foi Fauzi Arap também quem me encorajou e incentivou a começar a dirigir, aos 22 anos, e me ensinou a olhar de forma diferente para os atores”, comenta Marcelo Fonseca. Ele ainda conta que, em 1998, buscou em vão recursos para montar a peça; foi quando Fauzi e ele tiveram a ideia de reeditar o cenário de Império. Em 2014, a antiga sede do Teatro do Incêndio teve como primeira atividade uma leitura interna de Pano de Boca. “Sentimos nossas vidas como um teatro de pernas para o ar, procurando sentido na reafirmação do poder da palavra, tão perdida em experimentos estéticos vazios à nossa volta, onde o humano é misturado no mesmo caldeirão das ideologias e máquinas”, comenta o diretor.


Serviço

Estreia: 11 de julho. Sábado, às 20 horas
Teatro do Incêndio
Rua 13 de Maio, 53 – Bixiga/SP. Tel: (11) 2609-3730 / 2609-8561
Horários: sábados (20 horas), domingos (18 horas) e segunda (20 horas)
Temporada: de 11 de julho a 14 de setembro
Gênero: Drama. Duração: 120 min. Capacidade: 75 lugares
Ingressos: R$ 5,00 (preço único). Bilheteria: 2h antes
Aceita dinheiro e cartão de débito.

Fonte:Verbena Comunicação