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“Mártir”

Publicada em : 15/12/2017

Cia. Arthur-Arnaldo propõe reflexão sobre intolerância religiosa e os discursos de ódio

Edson Kumasaka
Com direção de Soledad Yunge, espetáculo reestreia no dia 12 de janeiro no Teatro Cacilda Becker. A entrada é gratuita, com distribuição de ingressos uma hora antes de cada sessão

O fundamentalismo religioso, os discursos de ódio e a violência provocada pela intolerância, pautas cada vez mais atuais no Brasil, são os temas da peça Mártir, de Marius Von Mayenburg, um dos principais nomes do teatro alemão contemporâneo. A trama narra a transformação do jovem Benjamin, que, ao começar a ler a Bíblia, para de frequentar as aulas mistas de natação na escola porque elas ferem seus sentimentos religiosos.

A mãe do protagonista atribui o seu novo comportamento, a um possível envolvimento com drogas ou a conflitos com sua sexualidade. A única que parece se preocupar com ele é Érica, sua professora de biologia, que logo vira alvo dos ataques do menino.
Benjamin mergulha profundamente na Bíblia e usa trechos das escrituras sagradas para combater radicalmente a ciência e qualquer fé diferente da sua. Ele cria para si uma verdade absoluta e inabalável a medida em que vai criando conflitos com os outros personagens. O espetáculo mostra essa trajetória da conversão religiosa até a radicalização do discurso, uma forma de “crucificação” da alteridade.

Com direção de Soledad Yunge, o espetáculo levanta questionamentos: até que ponto as pessoas estão dispostas para aceitar a fé das outras? Em que circunstância elas devem impor as próprias crenças? Como elas se comportam ao se deparar com doutrinas diferentes das suas? Qual é o limite entre um discurso de mudança e um comportamento extremista? O que é a verdade? Como alguém é capaz de transformar uma opinião em “verdade absoluta” para justificar os próprios desejos?

A ideia de pesquisar cenicamente esses temas surgiu em 2015, depois que a Cia. Arthur-Arnaldo ministrou oficinas de teatro em escolas públicas e particulares no projeto #JOVENS contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo. Na ocasião, os artistas perceberam a existência de uma juventude religiosa que tem ganhado força nos últimos anos.

“Ao finalizar a leitura de ‘Mártir’, tive o impulso de começar a ensaiar imediatamente e tornar tridimensional as sensações que o texto despertou. A agilidade dos diálogos cortantes e precisos em contraponto aos solilóquios de citações bíblicas me lançou em um redemoinho, no qual vozes e forças se confrontam constantemente. Ao longo das 27 cenas somos convocados o tempo todo a pensar nas nossas crenças e traçar os limites em relação a temas como racismo, sexualidade, machismo, religião, extremismo, deficiência entre outros”, comenta Yunge.

A cenografia de Rafael Souza cria um espaço fictício único a partir de dois elementos simples, cadeiras e mesas, que poderiam ser encontrados em qualquer um dos diversos ambientes da narrativa. Todos atores o ocupam simultaneamente, de forma que as cenas borram seus limites e seguem o fluxo vertiginoso da dramaturgia. A iluminação, por sua vez, fragmenta este espaço híbrido e dá visibilidade às trajetórias.

A montagem é parte do projeto )Entre Jovens( contemplado pela 30a edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo. O elenco conta com a participação dos atores: Ana Andreatta, Carlos Morelli, Edu Guimarães, Georgina Castro, João Bienemann, Júlia Novaes, Taiguara Chagas e Tuna Serzedello.

Escrita em 2012, a peça ficou em cartaz no Teatro Schaubühne em Berlim com direção do próprio autor. Foi descrita pelo jornal britânico The Guardian como “provocativa e terrivelmente engraçada” por ocasião da montagem britânica do texto em 2015. A tradução do texto alemão para o português, assinada por Christine Röhrig, foi concedida à Cia. Arthur-Arnaldo pelo Goethe Institut.

MARIUS VON MAYENBURG
Considerado um dos maiores representantes do teatro alemão contemporâneo, o dramaturgo, diretor e tradutor Marius von Mayenburg nasceu em 1972, em Munique. Ele estudou dramaturgia na Universidade das Artes em Berlim. Desde 1999, trabalha na Berliner Schaubühne am Lehniner Platz, como dramaturgo residente e diretor junto com o reconhecido encenador Thomas Ostermeier. Já recebeu os Prêmios Kleist-Förderpreis de dramaturgia jovem e da Fundação de Autores de Frankfurt. Além de “Mártir”, suas peças já traduzidas para o português são “Cara de Fogo”, “Senhorita Danzer”, “O Feio” e “Parasitas”.

SOLEDAD YUNGE
Formada em Artes Cênicas pela ECA-USP, pela Desmond Jones School of Mime and Physical Theatre e pela École Philippe Gaulier, ambas na Inglaterra, a diretora, produtora e arte-educadora Soledad Yunge é fundadora da Cia. Falbalá, da Cooperativa Paulista de Teatro (CPT). Ela participou do programa Teatro Vocacional, da Prefeitura de São Paulo, e foi uma das diretoras dos projetos Fábricas de Cultura e Ademar Guerra, ambos do Governo do Estado de São Paulo. Algumas das peças dirigidas por ela são “Vovó Rock and Roll”; “Os Pés Murchos x Os Cabeças de Bagre”, de Tuna Serzedello; “Autobahn”, de Neil Labute; “Vernissage” e “A Audiência”, ambas de Václav Havel; “A Dança do Universo”, de Oswaldo Mendes; entre outras. Yunge é produtora na Cia. Arthur Arnaldo desde 2000 e colabora artisticamente em todos os trabalhos do grupo. Além disso, ministra oficinas e cursos teatrais.

CIA. ARTHUR-ARNALDO
Criada em 1996, a Cia. Arthur-Arnaldo tem sua linha de pesquisa atrelada a temas sociais e políticos. Desde 2006, o grupo dedica-se à montagem de textos voltados para o público jovem, foi indicada várias vezes ao Prêmio FEMSA de Teatro Jovem, entre outros. Alguns dos trabalhos mais recentes da Companhia são “Rolê” (2015) e “Os Pés Murchos x Os Cabeças de Bagre” (2014), ambos com texto de Tuna Serzedello; “Coro dos Maus Alunos” (2013), de Tiago Rodrigues; “Feizbuk”, de José Maria Muscari; e “DNA” (2009), de Dennis Kelly. 

Benjamim não quer mais frequentar as aulas de natação na escola. Sua mãe acha que ele está usando drogas ou tem conflitos com seu corpo. Mas, na verdade, o jovem encontrou Deus, e as aulas mistas ofendem os seus princípios religiosos. Fundamentalismo e intolerância são os principais temas desta provocadora peça, que também questiona: até onde somos capazes de chegar para aceitar a fé do outro? Quando devemos impor as nossa próprias crenças?

SERVIÇO
“Mártir”, da Cia. Arthur-Arnaldo

Teatro Cacilda Becker – Rua Tito, 295 - Lapa
Temporada: de 12 de janeiro a 4 de fevereiro
Às sextas e aos sábados, às 21h, e aos domingos, às 19h
*Sessão extra ocorre no dia 25 de janeiro, às 21h
Ingressos: grátis, com distribuição de convites uma hora antes de cada sessão
Duração: 80 minutos
Classificação: 14 anos
Lotação: 198 lugares
Edson Kumasaka
Edson Kumasaka

Fonte:Pombo Correio