Cultura

Home/ Notícias Online/ Cultura/ Mulher Sem Fim

Mulher Sem Fim

Publicada em : 10/05/2017

Figuras históricas de mulheres são representadas por gestos, cantos e textos da atriz Andréia Nhur

Paola Bertolini
Em apresentação solo, a atriz do grupo Katharsis Teatro, Andréia Nhur (finalista do prêmio APCA de 2015 na categoria Melhor Atriz por As Estrelas São Para Sempre?) apresenta a partir do dia 26 de maio, sexta-feira, 21h, no TUSP, o espetáculo Mulher Sem Fim. Constituído por pequenos quadros narrativos, a obra propõe uma reflexão sobre a construção cultural da mulher no aspecto social, afetivo e subjetivo.

Neste trabalho, Andréia contou com colaboração dos demais integrantes do Katharsis Teatro: a musicista e bailarina Janice Vieira (sua mãe), o dramaturgo, diretor e iluminador Roberto Gill Camargo (seu pai) e a atriz e produtora Paola Bertolini. Em cena, a artista dança, canta e representa em uma narrativa descontínua corpos de mulheres tomados pelos contextos em que elas vivem.

Para criar o solo, Andréia recorreu a um recurso central na pesquisa do Katharsis – a busca da materialidade da cena antes de algum significado imediato – as mulheres construídas por Andréia transitam de uma para a outra por associações que se mostram em seus gestos e textos. “No Katharsis buscamos as associações antes dos significados. Procuramos entender onde o gesto, a voz e outros elementos conduzem o corpo”, explica Andréia.

Sendo assim, a representação de uma reza árabe vira a imagem de uma escultura de Afrodite para logo em seguida se tornar a canção Jesus, Alegria dos Homens, de Bach. “As culturas vão se transformando no corpo a partir do que cada som ou movimento lembra. A partitura corre pelo meu corpo e chega nas imagens dos cantos, por exemplo”, conta a artista.

Em alguns dos quadros, a atriz referencia personagens femininas conhecidas mundialmente, como Emma Bovary, do romance francês de Gustave Flaubert Madame Bovary, e Lady Macbeth, da peça Macbeth, de William Shakespeare.

“A visão que Emma criou da liberdade está muito associada ao que um homem poderia oferecer a ela. Emma é uma espécie de heroína aprisionada, porque tudo que existia em seu universo era parte de uma construção masculina”, avalia Andréia. Sobre Lady Macbeth, ela pontua o fato de que ambicionar o poder e arquitetar sua liberdade – e a de seu marido – lhe custou a vida.

Andréia também reproduz o canto de uma pastora cristã para experimentar o que “a voz da religião pode fazer com a voz de uma mulher” e se referencia a mulheres assassinadas por regimentos totalitários na história universal, como Joana D’arc, queimada viva, e Mary Stuart, decapitada.

A artista ainda conduz o público num canto à Nossa Senhora do Rosário que resulta do relato de Dadá, esposa de Corisco (cangaceiro de Lampião) - cuja morte foi fundamental para o enfraquecimento do cangaço - e passa por uma menção à cantora e atriz luso-brasileira Carmen Miranda.

“São várias narrativas que se encerram e chegam nas outras”, sintetiza Andréia, reforçando no entanto que o que conduz Mulher Sem Fim é a narrativa de mulheres vivendo nos limites do que suas culturas oferecem.

Gill Camargo, iluminador e provocador no espetáculo, diz que a ideia dramatúrgica de Mulher Sem Fim acontece em abismos, se aprofundando em várias camadas e seguindo a estrutura de um espelhamento infinito. O conceito observado por Gill foi cunhado em 1893 pelo escritor francês André Gide.

Andréia conta que a ideia inicial da peça surgiu há mais de três anos e foi compartilhada neste período com integrantes da TEIA (Território de Estudos Indisciplinares em Artes - ECA-USP), grupo de artistas e provocadores que acompanharam os primeiros passos do trabalho.

“Hoje o trabalho tomou outras formas, mas ainda é o prosseguimento da pesquisa de teatro e o desenvolvimento da linguagem do Katharsis”, avalia.


Mulher sem fim é uma experiência solo de Andréia Nhur & Katharsis Teatro. O trabalho mostra um recorte da pesquisa de Andréia Nhur junto ao Grupo Katharsis Teatro nos últimos 12 anos, em que forma e sentido agenciam o corpo em estados múltiplos e descontínuos.

O gênero-mulher, perpassado por uma escrita em redemoinho, inscreve-se num corpo constantemente interpelado por ecos de mulheres sopradas pelas memórias da cultura. 

Com colaboração de Janice Vieira, Roberto Gill Camargo e Paola Bertolini, Nhur traz para a cena um atravessamento entre teatro, dança e música, numa estrutura dramatúrgica em abismo.

A ideia de dramaturgia em abismo inspira-se na noção de narrativa em abismo – cunhada em 1893 pelo escritor André Gide— e faz referência a uma estrutura composta por outras estruturas de mesma natureza, em espelhamento infinito.


Serviço

Mulher Sem Fim

Temporada: De 26 de maio a 4 de junho. Sextas e sábados às 21h. Domingos, às 18h.
Local: TUSP (Teatro da USP): Rua Maria Antônia, 294 – Vila Buarque. São Paulo (SP)
Classificação: Livre
Ingressos: R$10 (inteira) e R$5 (meia)

Fonte:Daniela Costa