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O Orgulho da Rua Parnell

Publicada em : 20/12/2016

Texto inédito de Sebastian Barry estreia na Verniz Galeria

Eliana Souza
Eliana Souza
O espetáculo inédito no Brasil O Orgulho da Rua Parnell, do dramaturgo inglês Sebastian Barry, estreia no dia 14 de janeiro (sábado, às 20h) na Verniz Galeria com direção de Darson Ribeiro.

A peça é uma compilação de monólogos interconectados – interpretados por Alexandre Tigano e Claudiane Carvalho - onde um casal relata minuciosamente o resultado caótico de uma relação de amor que foi ceifada por um ato medonho de violência por parte do marido. A encenação utiliza a ambientação natural da galeria como cenário e plateia (o público senta-se nos próprios móveis do antiquário, que também podem ser adquiridos).

O Orgulho da Rua Parnell narra 10 anos dessa complicada e também bela história de amor. Em movimentos delicados – quase paralisados – as personagens descrevem entre lágrimas, risos, tesão e orgulho tudo o que os levou à situação atual. São lembranças pesadas e até insanas, mas permeadas de um amor sem igual. A peça revela o grau de perigo, quase sempre perniciosamente velado, que existe na paixão e o estrago que isso pode provocar, caso esse sentimento seja sublimado ou potencializado em substituição às vontades próprias, fazendo do egoísmo uma arma fatal.

Na obra de Barry as limitações e o controle das emoções vêm no formato de prosa, ao mesmo tempo áspera e macia. Joe Brady é um ladrãozinho insignificante que tem o apelido de “homem-meio-dia”. Ele e sua esposa Janet vivem na periferia de Dublin, na Irlanda, e apesar da vida marginalizada mantêm orgulho de seu lifestyle, como ocorre com a maioria das personagens de Sebastian Barry.

No enredo, a derrota que marcou a desmoralizante desclassificação da Irlanda na Copa do Mundo de 1990, na Itália, cobrou seu preço. E parece que para o casal Joe e Janet a cobrança veio com juros altíssimos. O déficit desses dois foi maior do que o da seleção naquela noite. Alguns anos se passaram e agora eles revelam a intimidade de um amor eterno, mas também a ruptura desastrosa do casamento.

É um início de relação pobre, mas feliz. Ela, mãe aos 16 anos, sofre para criar os três filhos. Ele, apelidado de “midday man”, vive à sombra e água fresca, roubando carros. Eles vão se aturando até que o primogênito Billy morre atropelado por um caminhão de cerveja. Este é talvez o início do fim, não só da relação, mas até mesmo do amor pela Irlanda. Será? Ao voltar para casa, após a quarta de final dos jogos, Joe quase mata a esposa, espancando-a. Desfacelada, ela foge para um abrigo de mulheres, levando as crianças. Apesar da ausência do marido - e pai - ela vai reconstruindo sua vida, enquanto ele se afunda na heroína, nas prisões e sofre com a AIDS.

Segundo o diretor Darson Ribeiro, “O Orgulho Da Rua Parnell se encaixa perfeitamente no contexto teórico e estético de montagens realizadas por ele, como a recente Os Guarda-Chuvas, que discutia a degradação da família culminada com a morte da esposa e mãe, interpretada por Maria Fernanda Cândido”. Ele argumenta que a peça de Barry traz a simplicidade como aliada, respeitando o não naturalismo indicado pelo autor, principalmente na relação interpretativa dos atores. E a direção, então, se apropria da precisão para contar essa trágica história de amor, brincando com o imagético e criando camadas no arquétipo das personagens. “A história é narrada como se ‘esfregássemos’ as situações na cara do espectador. E tudo isso em meio ao acervo da Verniz, uma Galeria que garimpa e recupera mobiliário industrial, localizada no Centro velho de São Paulo, hoje point entre os  descolados”.

Sobre o tema “violência contra a mulher”, o diretor ressalta os altos índices e o número de prisões e de mortes que vêm aumentando em vários países, incluindo o Brasil, culminando no dilaceramento familiar. “A sociedade dá pouca atenção para o fato. O teatro tem a função de alertá-la. Desta forma, o Conselho Estadual de Defesa da Mulher, por meio de sua Presidente Rosmary Correa foi o primeiro a credenciar esse projeto”, comenta Darson.

“Vivemos numa época em que cada vez mais o homem, ainda que inconscientemente, vem tentando contar com seus sentidos. É nesse estado que ele, paradoxalmente, provoca em si atitudes que ultrapassam limites da consciência. Só depois, já com o ato consumado, é que busca a qualquer custo se livrar das armadilhas de seu próprio desejo. Assim, empenha-se desmedidamente em valorizar o que era simples, belo e eficaz: o viver... Quase numa espécie de sublimação. Por esse motivo escolhi a Galeria Verniz - um antiquário que tem a delicadeza de misturar objetos com a força de peças e mobiliário industrial, que vai de encontro à ‘cenografia desmantelada’, e ao mesmo tempo aconchegante, do casal protagonista. As pessoas entram e se sentam em pequenos lounges com poltronas e mesas em ambientes íntimos, podendo inclusive comprar não só as peças onde estão sentadas, mas obras de arte, relíquias, sofás, tapeçarias e vasos.” Finaliza o diretor.

Sebastian Barry e O Orgulho da Rua Parnell

Depois de ter sido interrogado sobre a razão pela qual ainda não tinha escrito uma peça tendo como tema a violência contra a mulher, Barry alegou que vinha insatisfeito com textos sem embocadura para os atores. Mas, no final de 2004, atendendo ao pedido do diretor artístico do Dublin Fishamble Theatre Company, Jim Culleton, trouxe ao papel as lembranças da Copa de 1990, quando vivia em Dublin, na Irlanda, mais particularmente na Rua Parnell. Segundo a pesquisa do autor, após as partidas de futebol, principalmente as derrotadas, os maridos ainda sob uma espécie de “euforia futebolística” chegavam em casa e espancavam violentamente suas esposas. Estas mulheres superlotavam os abrigos femininos.

Assim, com o texto, Barry tenta encontrar a razão de tamanha violência, que ainda impera nos dias de hoje, valendo citar os altos índices do Brasil. Com ou sem futebol. Em 2006, numa de suas aulas de teatro, a inspiração para aprimorar o texto veio com veemência. E, assim, iniciou uma série de trocas de emails com Culleton, o primeiro diretor da peça, retomando “o quão verdadeiro e preciso – ao mesmo tempo misterioso – o teatro pode ser”. Ele completa: “quando você vai ao teatro e vê uma peça qualquer, ainda que simples sobre pais e filhos, ela vai te fazer avaliar o que a vida é de fato, e o quão curta ela é”. Em 2007, com a resposta positiva do público e da crítica no Festival de Teatro de Dublin, Sebastian Barry teve a certeza de que The Pride Of Parnell Street o havia reconectado definitivamente com o palco.

Serviço

Espetáculo: O Orgulho da Rua Parnell

Local: Verniz Galeria
Rua Álvaro de Carvalho, 318. Centro/SP.
Estreia: 14 de janeiro de 2017. Sábado, às 20h
Temporada: sábados e segundas (às 20h) e domingos (às 19h) – Até 19/02.
Ingressos: R$ 60,00 (meia: 30,00).
Bilheteria: 1h antes das sessões (aceita cheque e dinheiro).
Classificação: 12 anos. Duração: 75 minutos. Gênero: drama. Capacidade: 50 lugares.
Ingresso online: www.ingressorapido.com.br (4003-1212). Reservas: (11) 97655-3687

Fonte:VERBENA COMUNICAÇÃO